Um Despertar para a Mudança
É comum ouvir pessoas de 30 anos dizerem que mudaram muito desde os 20, enquanto as de 40 tendem a afirmar que mudarão pouco até os 50. Essa diferença entre as respostas tem um nome: ilusão do fim da história. Este fenômeno foi descrito em 2013 por Jordi Quoidbach e Daniel Gilbert, da Universidade Harvard, e Timothy Wilson, da Universidade da Virgínia, em um estudo que envolveu cerca de 19 mil pessoas de 18 a 68 anos.
Como os Pesquisadores Mediram a Mudança
Os autores do estudo compararam dois grupos: uma pessoa de 20 anos que previa quanto mudaria até os 30 e outra de 30 anos que contava quanto tinha mudado desde os 20. Se as previsões fossem precisas, as duas respostas deveriam ser parecidas. No entanto, isso não ocorreu: quem previa o futuro sempre estimava menos mudança do que quem olhava para o passado.
Dimensões da Mudança
- Personalidade: medida por um questionário de traços como abertura, responsabilidade e estabilidade emocional.
- Valores: os princípios que cada pessoa considera mais importantes na vida.
- Preferências: como música, tipo de férias, comida, hobby e até o melhor amigo.
Conferindo a Memória
Os pesquisadores também conferiram se o problema estava na memória. Para isso, compararam os relatos de mudança com dados de outro levantamento americano, que acompanhou as mesmas pessoas por dez anos. Os relatos sobre o passado bateram com a mudança real, enquanto as previsões sobre o futuro ficaram abaixo dela.
Consequências Práticas da Ilusão
Em um dos experimentos, os participantes disseram quanto pagariam, daqui a dez anos, para ver um show da banda de que mais gostavam hoje: em média, US$ 129. Outro grupo disse quanto pagaria agora para ver a banda de que mais gostava dez anos atrás: US$ 80. A diferença, de 61%, mostra que as pessoas pagam caro para garantir no futuro um gosto que, muito provavelmente, vai mudar.
Por que Caímos Nessa?
Os pesquisadores levantam duas explicações: a primeira é que as pessoas gostam de quem são no momento e acham a própria personalidade atraente, os valores admiráveis e as preferências sensatas. A segunda é que imaginar uma mudança futura é mais difícil do que lembrar uma mudança passada. As pessoas confundem a dificuldade de imaginar a mudança com a improbabilidade de ela acontecer.
Implicações nas Escolhas de Carreira
Embora o estudo não trate de trabalho, a lógica se aplica a decisões que muita gente toma cedo: o curso da faculdade, a primeira área de atuação, o tipo de empresa onde quer construir carreira. Quem escolhe aos 20 anos tende a decidir como se a pessoa de 30 fosse ter os mesmos gostos e prioridades. A pesquisa sugere que isso não será o caso.
Atitudes para Levar o Achado em Conta
- Olhe para trás antes de olhar para frente. Listar o que mudou nos últimos cinco anos, em interesses, amizades e objetivos, dá uma medida mais realista do quanto você ainda pode mudar.
- Prefira decisões que deixam portas abertas. Habilidades que servem a vários caminhos, como comunicação, análise de dados e idiomas, rendem mesmo se o objetivo mudar.
- Revisite o plano de tempos em tempos. Um plano de desenvolvimento feito hoje é uma hipótese, e pode ser atualizado quando você mudar.
- Autoconhecimento também é saber que você muda. Conhecer a si mesmo inclui entender de onde você veio, que padrões se repetem e o que já se transformou ao longo do caminho.