O crescimento acelerado de empresas de tecnologia por meio de aquisições trouxe um desafio complexo que vai além da integração de sistemas e clientes, envolvendo a junção de pessoas com histórias e formas distintas de trabalhar. Esse é um dos principais pontos que passaram a fazer parte da rotina dos times de Recursos Humanos em companhias que crescem rapidamente. A Zucchetti, um grupo italiano de tecnologia com atuação no Brasil há 15 anos, passou por esse processo ao construir sua operação local a partir da compra de empresas brasileiras, hoje contando com cerca de 1.000 funcionários no país e reunindo negócios de diferentes áreas.
Desafios na Integração de Empresas
A história da operação brasileira da Zucchetti voltou ao centro da conversa com a participação de Alessio Mainardi, CEO da Zucchetti Brasil, na edição de setembro do Clube CHRO, um encontro da EXAME com lideranças de recursos humanos. Durante o evento, Mainardi compartilhou como a empresa lidou com a integração de dez aquisições e como planeja continuar crescendo sem perder o controle sobre a forma de trabalhar. A Zucchetti dobrou o número de funcionários no Brasil em cerca de um ano, passando de 500 para 1.000 colaboradores, e agora busca equilibrar os processos trazidos da matriz italiana com as características das empresas brasileiras incorporadas ao grupo.
Estratégia de Aquisições
A Zucchetti iniciou sua operação no Brasil com uma missão diferente da atual, buscando aproveitar o momento de grandes eventos no país para vender soluções de controle de acesso. No entanto, o plano não avançou como esperado, e a alternativa encontrada foi comprar empresas brasileiras para entender o mercado local e adaptar os produtos desenvolvidos na Itália. A primeira aquisição aconteceu em Mogi Mirim, no interior de São Paulo, com uma empresa de software de gestão. Mainardi destacou que comprar uma companhia já estabelecida era uma forma mais rápida de adquirir conhecimento sobre o país, permitindo que a empresa continuasse dando lucro sem a pressão de sair do vermelho para o azul.
Expansão e Diversificação
A partir da primeira aquisição, a Zucchetti passou a ampliar sua presença em diferentes mercados. A empresa comprou negócios ligados a ERP e depois buscou segmentos onde poderia competir com mais espaço. Um dos movimentos mais marcantes aconteceu em Concórdia, cidade de 70.000 habitantes no oeste de Santa Catarina, onde a companhia comprou três empresas que desenvolviam softwares de ponto de venda para pequenos varejistas. Mainardi apresentou aos fundadores a ideia de construir uma rede maior no setor, resultando em uma base de mais de 110.000 clientes e 4.000 revendas no Brasil.
Entrada no Mercado de RH
Um dos movimentos de diversificação foi a entrada no mercado de tecnologia para recursos humanos com a Elofy, plataforma que reúne ferramentas de avaliação de desempenho, acompanhamento de metas, pesquisas de clima e reuniões entre líderes e funcionários. Segundo Mainardi, a Zucchetti foi uma das primeiras empresas de tecnologia a investir nesse segmento no Brasil, visando ajudar as empresas a lidar com as pessoas de forma mais objetiva. A aquisição da Elofy ganhou importância dentro da própria operação brasileira, que passou a lidar com uma equipe maior e formada por pessoas vindas de diferentes empresas.
Integração de Culturas
Com dez aquisições no país, a Zucchetti precisou lidar com empresas que tinham formas próprias de trabalhar. Mainardi destacou que o erro seria tentar impor uma única cultura imediatamente, pois cultura não é algo que se pode impor de forma abrupta. A integração começa pelo entendimento do negócio comprado, reconhecendo o valor que demoraria muito mais tempo para criar sozinho. A área de RH faz um mapeamento cultural depois das aquisições para entender como cada empresa funciona, definindo o ritmo das mudanças com base nesse diagnóstico.
Papel de Alessio Mainardi
Além do crescimento por aquisições, Mainardi também precisou lidar com diferenças entre os modelos de trabalho italiano e brasileiro. Segundo ele, a comunicação é uma das principais diferenças, com os italianos sendo mais diretos e os brasileiros valorizando mais o relacionamento antes de uma conversa difícil. Mainardi atua como um mediador cultural entre os dois mundos, fazendo parte do processo de internacionalização. As diferenças também aparecem nas regras trabalhistas, com a legislação italiana tornando desligamentos mais difíceis, enquanto no Brasil as empresas têm regras diferentes para encerrar contratos.
Filosofia da Empresa
A Zucchetti tenta manter alguns princípios criados pela família fundadora na Itália há quase 50 anos, como a ideia de que o cliente deve orientar as decisões e que a empresa precisa manter disciplina operacional para enfrentar momentos de dificuldade. Essa filosofia é apresentada aos poucos aos novos funcionários, com o objetivo de manter esses princípios em uma organização formada por diferentes empresas, mercados e histórias profissionais.